Publicamos abaixo estupenda colaboração de um colega do interior do Estado, que solicitou fosse mantido anônimo para evitar eventuais retaliações:

"A Semelhança

Primeiro parcelaram os salários dos servidores públicos do Poder Executivo, mas não me importei com isso. Eu estudei para ser Oficial Escrevente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, não estava nem aí com os problemas deles, até porque eu sabia que o Poder Judiciário tem orçamento próprio, o famoso repasse do duodécimo, então eu jamais prestaria concurso para o Poder Executivo para correr esse risco. Danem-se os professores, médicos, enfermeiros, policiais e demais “colegas”...

 

Em seguida extinguiram o cargo de ASG (Auxiliar de Serviços Gerais), mas eu não me importei com isso. Não estava nem aí com os problemas deles, pouco me importei. Quem mandou não estudar? Quem mandou não fazer o mesmo concurso que eu fiz? Sinceramente, seria bem melhor que o TJ terceirizasse logo essas pessoas, pois além de não servirem mais para nada, só ficam se lamentando que ganham pouco e não veem a hora de se aposentar!

 

Estão falando que vão privatizar a CEEE, mas eu não me importo, afinal de contas eu não sou celetista. Repito, sou servidor do Poder Judiciário, meu camarada! Dentro do Fórum até posso ser tratado como um súdito, mas na rua, até o cuidador de carros me chama de Doutor. – E sabe de uma coisa? Eu me sinto o máximo! – E outra, quem mandou prestar concurso para ser celetista? Por certo não se sabia que a CLT no Brasil é flexibilizada a tal ponto de quebrar os ossos dos trabalhadores? É problema deles, não é meu!

 

Depois congelaram o cargo de Escrivão, com o objetivo de extingui-lo, mas não me importei, muito pelo contrário, eu vibrei com a possibilidade de que um dia eu pudesse me tornar um Escrivão Designado e duplicar meu salário num passe de mágica! E consegui… só não vislumbrei que eu seria um eterno peão de luxo nas mãos de um juiz que sempre foi plenipotenciário (a agora ainda mais) por razão do cargo que ocupa. Não vislumbrei que seria melhor que houvesse concursos para Escrivão, pois um dia eu poderia me tornar um de verdade, sem temer a perda daquela FG que depois de anos eu incorporei no meu orçamento. Não é justo puxar a corda amarrada ao pescoço dos meus colegas para manter minha FG, assim como também não é justo que ele me faça trabalhar nesse ritmo só porque ele quer ser promovido para uma comarca de entrância superior às minhas custas (nas minhas costas). Enquanto eu trabalho 40h semanais assim como os meus colegas, ele sempre chega bem depois de mim e sai bem antes de mim...

 

Agora estão querendo extinguir o cargo de Oficial Escrevente com o PL 93/2017! Mas que absurdo! Eu me comportei tão bem! Eu acreditei nas falsas promessas que me fizeram, que eu me daria bem enquanto a sociedade ruiria debaixo do meu nariz. Mas quem é esse tal Técnico Judiciário? Ah, é o filho daquele ASG, é o ex-celetista da CEEE, é aquele cuidador de carros, sabe aquele cuidador de carros que me chamava de Doutor e eu ficava calado? Ele sempre soube que eu não era ninguém, mas quando ele me chamava de Doutor eu aceitava e me comportava com um certo ar de superioridade, assim como os juízes fazem em relação a mim. Eu nunca me importei se faltava algo na casa daquele cuidador de carros, assim como os juízes nunca se importaram comigo, muito menos com aquele ex-cuidador de carros, agora quase Técnico Judiciário que eu tanto o desprezei no passado e agora vou odiá-lo no futuro, porque estou convencido que ele tem razão para me odiar ainda mais...

 

O Sistema se vale da técnica utilizada pela Antiga Roma, divide et impera, criando pequenas diferenças entre os cidadãos, nos oferecendo migalhas em troca do silêncio e para coibir a justa indignação daqueles que estão ligeiramente inferior a nós, inferioridade essa imposta pelo próprio Sistema, fazendo com que toda a Sociedade seja subjugada. Podemos dar um basta a tudo isso, deixando nossas diferenças de lado para nos unirmos por um bem maior. Não é só pela extinção do nosso cargo e sim pelo desmonte que está acontecendo no nosso Estado e no nosso país.

 

Texto baseado no poema "A Indiferença" de Bertolt Brecht (1898-1956). O objetivo não é ofender os colegas, mas fazer com que todos reflitam sobre a forma que o Poder Judiciário atualmente tenta solucionar os litígios da Sociedade aumentando as tensões internas de sua própria estrutura. Reagir ou sucumbir! Escolha deve ser feita rapidamente!

 

PS: Se achas que vais escapar desse problema sendo aprovado no TRF4 ou em qualquer outro cargo, tu realmente não entendeste nada, meu camarada!"

movimento indignação